SBACV-RJ

Hall da fama

Um dos maiores presidentes da história da SBACV

Dr. Marcio Leal de Meirelles é reconhecidamente um dos maiores presidentes da rica história da nossa amada SBACV. Catarinense de nascimento e carioca de coração, veio ao mundo em 1 de dezembro de 1933, no município de Itajaí, cidade portuária e pesqueira do litoral norte de Santa Catarina. Filho de Margarida Miranda da Cruz e João Leal de Meirelles Junior é o caçula de cinco filhos: Roberto, Paulo, Silvio (Paulo e Silvio eram gêmeos), Homero (eminente médico ginecologista) e Marcio. Sua família se mudou para a capital Florianópolis ainda na infância de Marcio. Aos 8 anos, migrou para o Rio de Janeiro. Concluído o curso primário, esteve durante três anos no interior de São Paulo (São Carlos), retornando definitivamente, aos 14 anos, para o Rio de Janeiro. Fez seu ensino colegial (atual ensino médio) no Colégio Andrews, na Praia de Botafogo, onde atualmente funciona o Colégio PH. Homem muito ligado à família, quando do noivado do irmão Homero com Terezinha, ainda adolescente e de bicicleta, desempenhou com muito gosto e afinco a tarefa de entregar em domicílio parte dos convites de casamento deles.

Aos 16 anos, já se envolvia com o trabalho comunitário. Fundou um jornalzinho (o “União”) com os colegas de sala de aula e, também com eles, formou um animado grupo de ecoturismo que, nos fins de semana, subia os morros da cidade (Dois Irmãos, Pico do Papagaio e Pedra Bonita) ou fazia excursões a locais pouco explorados, como o Pontal de Sernambetiba, no então longínquo Recreio dos Bandeirantes. Membro da Ação Católica Brasileira, participou ativamente da Juventude Estudantil Católica (JEC) e do movimento estudantil da época na União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas, tendo, em 1952, integrado a delegação da entidade ao conclave nacional em Belo Horizonte. Nesse período, era da redação e da distribuição nos colégios do jornal estudantil “Roteiro da Juventude”.

Ingressou, no ano de 1953, na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil (atual UFRJ), no saudoso prédio da Praia Vermelha. Desde logo, associou o estudo das ciências básicas ao desempenho de atividades coletivas. Assim, logo no primeiro ano. foi eleito representante de turma. Dedicou-se à organização e distribuição de apostilas, ao fortalecimento da cooperativa da faculdade, especialmente quanto à importação de livros estrangeiros, e liderou uma acirrada campanha pela humanização do trote aos calouros. Durante os anos de faculdade, foi aluno de alguns de seus futuros colegas e mentores na SBACV: Sydney Arruda, George Charles Lemos Cordeiro, Humberto Barreto, Merisa Braga de Miguez Garrido, entre outros. Também nesse tempo, logrou aprovação em vários concursos públicos, como o do Instituto dos Comerciários, o IAPC (atual Hospital Federal de Ipanema), o de acadêmico do Pronto Socorro (Hospital Estadual Carlos Chagas), o de técnico de laboratório (Hospital Estadual Getúlio Vargas) e, finalmente, para admissão a estágio nos Estados Unidos, no concurso para graduados estrangeiros (ECFMG).

Formado médico em 1958, iniciou no ano seguinte sua pós-graduação (Internato e Residência em Cirurgia) nos Estados Unidos da América. Fez, inicialmente, o internato rotatório, no Ascension Borgess Hospital, no Condado de Kalamazoo, Estado de Michigan. Lá, se casou, três meses após a chegada, com sua noiva brasileira e colega de atividades na JUC (Juventude Universitária Católica), Maria de Nazareth Silveira. Natural de Belém do Pará, ela foi graduada em História Natural em 1958 na UERJ, mestre e doutora em Biofísica pela UFRJ, além de ter especialização em Parasitologia também pela UFRJ, foi pesquisadora titular da célebre Fundação Oswaldo Cruz, grande expoente dos estudos em doença de Chagas e uma cientista engajada à vida institucional. Uma longa doença fragilizou o final de vida da Profª. Nazareth, contra a qual ela lutou bravamente, sempre no carinho e no aconchego de sua família e do seu amado Marcio, começando e terminando os dias sempre com um beijo.

Ainda em Kalamazoo, nasceria o primeiro dos sete filhos deste admirável casal, o cirurgião vascular e membro da SBACV, Dr. Sergio Silveira Leal de Meirelles. No ano seguinte, iniciou a residência em Cirurgia no Hospital Good Samaritan, em Cincinnati, Ohio – o mesmo hospital onde o Dr. Thomas Fogarty (então cumprindo serviço militar) iria desenvolver, pouco depois, seu famoso cateter de embolectomia e onde também conheceu John Cranley, discípulo de Lynton e pioneiro da cirurgia vascular. Os três últimos anos de residência médica os fez em Worcester, estado de Massachusetts, no St. Vincent Hospital, tendo Paul Ware como seu mentor na cirurgia vascular.

Tão logo chegou de volta ao Brasil, foi convidado por Rodolpho Perissé para participar, com Antonio Joaquim Monteiro da Silva, José Carlos Bastos Côrtes e Maldonat Azambuja Santos, do recém-criado Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Souza Aguiar. Era um grupo pequeno e solidário que se revezava na cobertura de todos os plantões. Foi uma época criativa e de grande atividade. Perissé incentivava a atuação na SBANG (Sociedade Brasileira de Angiologia), participando o Dr. Marcio com inúmeras apresentações em congressos e reuniões científicas e a publicação de trabalhos, especialmente na Revista Angiopatias.

Sua atividade na clínica particular era também intensa e, graças a ela, Meirelles recebeu, em 1971, em trabalho conjunto com Monteiro da Silva e Risalva da Costa, o prêmio José de Mendonça, conferido pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões para inovações em técnica cirúrgica, com a apresentação de “uma nova incisão para acesso ao hiato safeno” - a que alguns colegas mais próximos passaram a referir como “incisão de Monteiro-Meirelles”.

Trabalhou no Hospital Souza Aguiar durante 30 anos (1965 a 1995) e teve como chefes Rodolpho Perissé e Haroldo Rodrigues. Durante esse longo período, conviveu no serviço com uma plêiade de nomes ilustres da Cirurgia Vascular. Foi durante vários anos chefe de clínica e, de 1990 a 1995, chefe do Serviço. Nessas funções, teve algumas iniciativas inovadoras, como por exemplo, no começo dos anos 80, criar um setor multidisciplinar de microcirurgia e, na década de 90, obter a oficialização da residência médica.

Suas atividades foram, aos poucos, deixando de restringir-se ao âmbito do Serviço de Cirurgia Vascular para estender-se ao Hospital e à própria estrutura central da Secretária Municipal de Saúde. Presidiu a banca examinadora do primeiro concurso para cirurgia vascular realizado pela Prefeitura, em 1986. Foi presidente do Centro de Estudos. Ajudou a criar a Comissão de Ética do Hospital e foi seu primeiro presidente. Foi diretor do Departamento de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Secretaria Municipal de Saúde. Nessa função, coube-lhe coordenar as atividades de bolsistas, internos e residentes e a capacitação do pessoal responsável pelo funcionamento do tomógrafo do Hospital Souza Aguiar, o primeiro tomógrafo em hospital de pronto socorro no Rio de Janeiro. Durante a crise da falência da Prefeitura, em 1989, assumiu a direção do Hospital Souza Aguiar. Tempo de greves, de funcionários sem salários, de carências generalizadas, de estresse permanente. Pouco a pouco, a situação foi superada, a nova e exemplar grande emergência inaugurada e o funcionamento do hospital restabelecido. Foi também criado, durante a sua direção, o Museu do Hospital e fundada a Associação dos Antigos Funcionários. Deixou, em 1991, a direção do hospital e, logo a seguir, assumiu a chefia do Serviço de Cirurgia Vascular. Nos últimos meses de sua carreira como médico do serviço público, participou intensamente do movimento das chefias médicas pelo reaparelhamento e modernização do Hospital Municipal Souza Aguiar, objetivo finalmente alcançado após dura e prolongada negociação. Antes de se aposentar, ajudou na estruturação formal do corpo clínico do hospital e na eleição de sua primeira diretoria.

Dr. Marcio Meirelles também trabalhou muitos anos como angiologista e cirurgião vascular no serviço médico do Banco do Brasil, onde também, ao final da carreira, exerceu funções de chefia. Também lá, envolveu-se na atividade do centro de estudos e na criação da primeira comissão de ética médica, de que foi presidente.

Assim como o irmão Homero, operou semanalmente na Casa de Saúde São José, no Humaitá onde, por mais de três décadas, internou seus pacientes particulares. Era, atualmente, presidente da Comissão de Ética da Casa de Saúde.

No setor associativo, Marcio Leal de Meirelles participou de associações de bairro – foi fundador e várias vezes diretor da AMA Jardim Botânico - e de clubes esportivos – foi diretor de natação do Clube de Regatas do Flamengo, do qual é sócio proprietário e conselheiro nato do Conselho Deliberativo.

Dr. Marcio foi conselheiro do Cremerj, de 1988 a 1993, secretário-geral da Sociedade Médica do Rio de Janeiro (Somerj) e membro do Conselho Deliberativo da Central de Convênios.

Sujeito gentil, educado, fidalgo, íntegro, probo e com grande senso de justiça e espírito associativo. Verdadeiro ícone e exemplo para os milhares de sócios da SBACV Brasil afora. Com seu espírito agregador, fundou e liderou um movimento histórico dos angiologistas e cirurgiões vasculares cariocas que, depois, foi copiado por diversas associações médicas, a saudosa Cooperativa dos Angiologistas e Cirurgiões Vasculares do Rio de Janeiro, a Coopangio-RJ, pioneira na defesa profissional da classe e que almejava a união dos especialistas vasculares com o fito de lutar por honorários médicos mais dignos, em especial na saúde suplementar, sendo seu presidente de 1994 a 1998 e Presidente do Conselho Administrativo de 2001 a 2003. Foi ainda membro dos Conselhos Consultivos da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e da Central de Convênios, Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (TCBC), foi Diretor da Seção Especializada em Cirurgia Vascular do CBC e fellow do American College of Surgeons (FACS).

Na Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), ingressou como sócio em 1965, passando a Membro Titular em 1972. Foi Membro da Diretoria da SBACV-RJ em muitas gestões e foi seu vice-presidente nos mandatos de 1977-1979, 1993-1995 e 1995-1997. Após disputadíssimo sufrágio eleitoral (ganho nos votos finais da apuração), o primeiro com duas chapas concorrentes, aliás, até hoje, foi presidente da Regional RJ na gestão 1997-1999. Nunca nos decepcionou e uniu novamente a SBACV-RJ com sua doçura e inteligência.

Atualmente, era membro da Diretoria da Regional RJ como membro do Conselho Consultivo, membro da Comissão de Segurança do Paciente e membro do Conselho de Notáveis.

Exerceu também diversos cargos na diretoria da Nacional. Foi 1º Secretário de 1987 a 1989, 1º Tesoureiro de 1989 a 1991, Tesoureiro-Geral de 1999 a 2001 e Presidente​ de 2001 a 2003, além de membro do Conselho Superior.

Como presidente da Nacional, enfrentou desafios enormes como o risco de perdermos as áreas de atuação para outras especialidades. Com seu jeito meigo, mas firme, evitou que a SBACV sucumbisse frente às especialidades muito mais numerosas e fortes. Foi também sob a sua batuta, em 2002, que nasceu a revista científica oficial da SBACV, o Jornal Vascular Brasileiro (JVB). Nossa revista virou símbolo nacional e sacramentou a importância da SBACV a nível mundial.

E o homem nunca parou de se importar com a classe médica e nunca abandonou o conhecimento científico. Recentemente, mais precisamente no ano de 2016, ergueu a bandeira e fundou o Observatório da Saúde (organização sem fins lucrativos, mas capaz de proporcionar debates amplos de todos os segmentos da sociedade civil brasileira relacionados à prevenção e à promoção da saúde no Rio de Janeiro e no Brasil), onde também foi presidente. Ele também foi um dos fundadores do Instituto de Medicina e Cidadania e era o vice-presidente da entidade.

Dr. Marcio Leal de Meirelles enfrentou o câncer de frente com a valentia de sempre. Há cerca de dez anos, foi diagnosticado com um tumor no intestino e, anos depois, com uma metástase no fígado. Curou-se após ser submetido a cirurgias e tratamentos quimioterápicos bem-sucedidos. Infelizmente, após complicações da Covid-19, deixa órfãos sete filhos (Sérgio, Maurício, Lúcia, Cristina, Virgínia, Eduardo e Ricardo), oito netos e centenas de angiologistas e cirurgiões vasculares. Vai deixar uma enorme lacuna, um vazio no plano terreno. Vá em paz querido mestre e grande rubro-negro!