SBACV-RJ

Hall da fama

Paulo Marcio, meu grande mestre. Que saudade!

*Dr. João Sahagoff, Presidente da SBACV-RJ (2020-2021)

Paulo Marcio Goulart Canongia. O destino fez com que eu tivesse a doída tarefa de anunciar sua partida no final da minha gestão como presidente da SBACV-RJ. Quão difícil foi e é. Talvez, seja para mim por muitos e muitos anos.

Paulo Marcio é reconhecidamente um dos sócios mais ativos, um dos diretores mais dinâmicos e um dos maiores presidentes da história da nossa amada SBACV-RJ.

A família Canongia tem sua origem na Catalunha, mas Ignacio Canongia (trisavô de Paulo Marcio) migra para Portugal a convite de Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal), pois era mestre na produção da seda e, seu neto Thiago Henrique Canongia (avô de Paulo Marcio) migra para o Brasil em 1857. Paulo Marcio nasce a 26 de maio de 1950, na cidade do Rio de Janeiro, filho de Helio Augusto Canongia e Lygia Goulart Canongia. Pai amoroso de Paula Moraes Canongia e Pedro Paulo Silva Canongia, Paulo Marcio foi também um vovô muito querido.

Paulo ingressou no ano de 1969 na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ainda no saudoso prédio da Praia Vermelha, cruelmente demolido no ano de 1973. Sua vida de estudante esteve sempre ligada ao seu querido Hospital do Andaraí. Ele inicia estágio em 1970 e cursa o internato em 1974, mesmo ano que conclui seu curso médico.

Em 1975, começa sua residência médica no Hospital do Andaraí, após aprovação em 1º lugar, onde aprende cirurgia com grandes mestres e dentre eles, o Prof. Octavio Benjamin Tourinho. Neste mesmo ano, a então SBAng credencia o Serviço de Cirurgia Vascular, chefiado pelo Prof. Tourinho.

No ano de 1977, faz concurso público do antigo Inamps e é aprovado em 4º lugar para trabalhar como cirurgião vascular no seu sempre presente Hospital do Andaraí. Foi plantonista, staff da rotina do Serviço, médico responsável pelas angiografias eletivas (eu aprendi como interno de Medicina a fazer aortografia por punção translombar com agulha de Cid dos Santos com Paulo Marcio) e Chefe de Serviço até se aposentar em 2008.

Foi aprovado nos seguintes concursos: acadêmico bolsista da Suseme (HMMC) e acadêmico de Medicina de hospitais militares (HCE) no ano de 1974; angiorradiologia (Inamps), Título de Especialista em Angiologia da SBACV/AMB, Título de Especialista em Cirurgia Vascular da SBACV/AMB em 1977.

Na UFRJ, fez concurso público em 1996 para ingressar no curso de pós-graduação lato sensu de Mestrado em Cirurgia Geral - Setor Vascular, sendo aprovado e, após um ótimo curso (foi meu colega), defendeu em 2000 sua dissertação sob a orientação do Prof. Luis Felipe da Silva (seu colega de estágio no hospital Vall d’Hebron em 1979, em Barcelona), concluindo com brilhantismo.

Quando parecia que sua vida profissional estava se encerrando, fez novo concurso público para angiologista do município de Silva Jardim no ano de 2016. Aliás, esse município da baixada litorânea fluminense teve especial lugar no coração de Paulo Marcio. Foi lá que Paulo começou um empreendimento rural adquirindo, plantando e tornando realidade a agricultura do palmito pupunha na região. Na sua propriedade, a Fazenda Mico Leão Dourado, Paulo Marcio criou inúmeras situações para atrair o turismo ecológico, mostrando como era o cultivo através da escolha e preparo das mudas, o plantio, os cuidados e a colheita do palmital e desenvolvendo atrações como tirolesa e arvorismo. A partir de 2007, ajudou a criar a “1ª Festa da Pupunha de Silva Jardim”. Foi um incentivador tão grande desse cultivo e da festa da planta nesta região, que é considerado o Patrono da Festa da Pupunha. A coisa deu tão certo que a referida festa faz parte das datas comemorativas e do calendário turístico oficial do Estado do Rio de Janeiro. Foi também fundador da Associação dos Produtores de Palmito da Baixada Litorânea do Rio de Janeiro juntamente com outros 11 produtores locais.

E sua vida de produtor rural não se resumiu à produção de palmito agroecológico. Em 2008, iniciou o projeto Tecnogir de criação de gado Gir leiteiro e melhoramento genético através da técnica de fertilização in vitro e começou a produzir o gado Girolando, tendo animais para venda e para uso próprio. Com esse gado de alta qualidade, passou a produzir leite direcionado para a Leiteria Jardim, no sítio Bonjour, onde produzia queijo minas frescal, queijo meia-cura, manteiga e creme de leite fresco.

Por essas e outras, recebeu o título de cidadão Silvajardinense em 2012 e foi agraciado com a medalha do mérito legislativo de Silva Jardim em 2017.

Na SBACV-RJ, trabalhou com vários presidentes em diversas diretorias, sempre seguindo disciplinarmente suas orientações e de acordo com a devida liberdade que lhe deram. Em 1990-91, como Vice-Diretor de Publicações na gestão de Reinaldo José Gallo, transformou nosso boletim e passou a oferecer uma distribuição nacional, patrocinada pelas empresas. A família SBACV de todo o Brasil ficou feliz por receber o periódico e os recursos excedentes ajudaram na aquisição da nossa primeira sede da Regional na Avenida Venezuela, na zona central da cidade do Rio de Janeiro. O sucesso na pasta foi tão grande que, na gestão seguinte (Vasco Lauria da Fonseca Filho), em 1992-93, como Diretor de Publicações criou a Revista de Angiologia e Cirurgia Vascular, primeira a ser de propriedade da Sociedade e promoveu sua distribuição gratuita no Brasil, Mercosul e até Portugal. Sua dedicação à Revista era tão grande que comprava o filme fotográfico da Kodak para a impressão como uma forma de reduzir custos, mas sua astúcia era tão aguçada que fez com que a companhia, em troca de anúncio na Revista e no Boletim da SBACV-RJ, fornecesse o filme sem custo. Além disso, conseguia através da boa relação com seus pacientes, acesso a papel de alta qualidade com preço diferenciado, mais barato, para que a publicação da Regional RJ fosse sempre um destaque.

Em 1994-95, ainda como Diretor de Publicações, agora da gestão José Luis Camarinha do Nascimento Silva, montou um trailer na porta do Hotel Méridien, onde duas enfermeiras e dois médicos residentes atendiam a população de 3ª idade e distribuíam uma edição especial da revista, que explicava as principais doenças vasculares. A compilação dos dados destas pessoas avaliadas gerou um artigo publicado pelo Dr. Sergio Pacheco de Oliveira.

Na gestão de Marcio Leal de Meirelles (1998-99) foi Diretor de Eventos, cargo que na época não fazia parte da diretoria executiva (só foi oficializado em 2015 na comissão coordenada por mim e José Luis Camarinha que criou o Estatuto e o Regimento Interno da SBACV-RJ na gestão Julio Peclat), mas que entendia ser de fundamental importância, pois acreditava que deveria ser voltado para o associado tanto na integração dos membros da Regional, quanto na aproximação dos sócios com a população. Neste período, introduziu o lanche nas reuniões científicas e a cobertura do valor do estacionamento, no intuito de aumentar o quórum das reuniões. Desenvolveu as reuniões fora da sede em fins de semana, com a presença dos familiares. Com a minha ajuda, seu vice-diretor, foi feita a primeira reunião científica fora de sede, no distrito de Penedo, município de Itatiaia, organizada por Luiz Carlos Gonçalves e os sócios do Sul Fluminense. A segunda reunião foi na Ilha de Itacuruçá, distrito de Mangaratiba, na Costa Verde, organizada por Adalberto Paulo Waack e a terceira reunião ocorreu em Silva Jardim, organizada pelo próprio Paulo Marcio. O sucesso destas primeiras reuniões foi tanto que colegas do estado de São Paulo vinham as nossas reuniões com suas famílias. Também neste período, promoveu a primeira teleconferência via Embratel, com palestra do Prof. Antonio Lópes Farré, de Madri, moderada por Gaudêncio Espinosa e transmitida ao vivo para cinco capitais.

Ainda como Diretor de Eventos do biênio 1998-99, delegou a missão ao seu jovem pupilo – eu, João Sahagoff -, de montar um stand na rua, dessa vez em frente ao então Hotel Sofitel (hoje Fairmont), em Copacabana, onde aconteceria o Encontro de Angiologia e Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro, a fim de realizar ecocolorDoppler das artérias carótidas para a população. Consegui uma parceria com um clube da melhor idade (Clube Cultural e Recreativo Posto 6) na praia de Copacabana, ao lado do hotel do congresso, e com um patrocínio conseguido pelo Dr. Paulo Marcio, mais a parceria de uma clínica de imagem, foram realizados mais de 450 exames de ecografia vascular na população atraída pela curiosidade em conhecer as doenças vasculares, sendo 281 em indivíduos da terceira idade, encontrando nestas pessoas mais idosas 123 placas carotídeas (43,77%). Aproveitaram para também distribuir o guia médico dos angiologistas e cirurgiões vasculares da SBACV-RJ, que serviria ainda como porta de entrada de futuras consultas para nossos especialistas.

No biênio 2000-01, foi vice-presidente da Regional RJ (gestão Alberto Coimbra Duque) e atento e sensível à questão dos honorários médicos, participou ativamente do grupo que trabalhou pelas mudanças na tabela de procedimentos da AMB.

Em 2002-03, chegou à presidência da SBACV-RJ. Passou a transmitir as reuniões científicas mensais via internet para todo o estado do Rio de Janeiro, promoveu a readmissão de sócios que estavam afastados, manteve as reuniões fora da sede, promoveu a 1ª Semana Nacional de Saúde Vascular, na estação do metrô Carioca, criou o sítio na web da SBACV-RJ, com a ajuda de Francisco Martins. Fez também um convênio jurídico com o escritório de Antonio Couto e Advogados Associados. Com a minha ajuda, na época Tesoureiro-Geral, publicou balanço financeiro quadrimestral no Boletim da SBACV-RJ e contratou auditoria financeira independente para o balanço final mostrando transparência total da gestão. Com sucesso, obtivemos uma inadimplência de apenas 7%. Em 2002, foi traçado o Perfil da Angiologia e da Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro, trabalho hercúleo de Ney Abrantes Lucas, sendo confeccionado um mapa retratando a presença ou ausência dos nossos especialistas nos 92 municípios do Rio de Janeiro. Neste mesmo ano, houve a comemoração dos 50 anos da Sociedade e foi realizada uma festa maravilhosa no Morro da Urca, com a presença e premiação dos fundadores e ex-presidentes.

Após a publicação do artigo “Legião dos Amputados”, de Ivan Arbex e Jorge Darze, o Ministério Público tomou o editorial como uma denúncia e arguiu as Secretarias Estadual e Municipal de Saúde. Sem saber julgar quais as medidas cabíveis, encaminhou as respostas das secretarias para a SBACV-RJ. A SBACV-RJ reuniu chefes de Serviços e líderes de opinião, que fizeram uma rotina de atendimento, além da proposta de encampar esta tarefa pela nossa cooperativa, a Coopangio-RJ (infelizmente não aceita). Programou durante o Encontro Carioca (em maio de 2002), uma mesa-redonda sobre pé diabético, com participação da SBACV-RJ, das Secretarias Estadual e Municipal e do Parquet, abordando prevenção, tratamento e a proposta da SBACV-RJ. O promotor, Dr. Emiliano Brunet (MP-RJ) explicou o que era o TAC (Termo de Ajuda de Conduta), marcando a 1ª audiência para 22 de maio de 2002, iniciando uma nova era de atenção a estes pacientes. Como resultado, foi criado o curso de capacitação de Agentes Comunitários de Saúde, com aulas presenciais ou gravadas sobre como identificar as lesões vasculares mais frequentes. Essas informações foram impressas na Revista da SBACV-RJ. A maioria dos municípios foi alcançada graças à colaboração de Gina Mancini e, com isso, fomos capazes de trazer à tona uma demanda reprimida por desconhecimento.

O auge de sua gestão foi a aquisição da nossa sede atual. Já havia significante quantia em caixa, fruto de sucesso das gestões anteriores e esse valor foi subitamente dobrado a partir do lucro do 34º Congresso Brasileiro realizado no Rio (trazido por Carlos José de Brito e Adalberto Pereira de Araújo, respectivamente Presidente e Tesoureiro do Congresso) com apoio dos Tesoureiros da gestão anterior e da sua gestão, Drs. Manuel Julio Cota Janeiro e eu. Foi adquirida a sala 1201 do Centro Empresarial Amadeus Mozart (prédio do Amarelinho, na Cinelândia, Centro do Rio), edifício tombado pelo Patrimônio Histórico e premiado pela sua brilhante restauração, que foi reformada e decorada pela arquiteta Fátima Pires Relvas. O Prof. Rubem Carlos Mayall foi o primeiro a entrar na sede como ato simbólico, durante a inauguração festiva em 13 de maio de 2003.

Participou como apoiador e colaborador discreto em outras gestões. Desde a gestão 2018-19 de Breno Caiafa, criou a seção Fora do Consultório, segmento que humanizou a Revista, mostrando um lado pessoal de cada um que foi entrevistado. Um lado que diferencia o sócio do senso comum, mostrando um hobby ou uma atividade extra de cada especialista que realiza com o mesmo amor com que pratica a Medicina. Essa coluna foi mantida na atual gestão, porém não conseguiu ser plena, pois a doença abateu Paulo Marcio, primeiro a famigerada pandemia de SARS-Cov-2, que quase nos tirou Paulo no final de 2020. Depois, porque foi descoberta neoplasia pancreática que finalmente o levou no final de 2021.

Felizmente, foi possível homenagear Paulo Marcio durante o XXXV Encontro de Angiologia e Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro, em março de 2021, momento emocionante que fez chorar a todos que conseguiram estar presente na véspera de novo lockdown e os milhares de médicos que só puderam assistir de modo remoto a linda homenagem. Missão cumprida que havia anunciado a ele desde setembro de 2018.

Dotado de grande espírito empreendedor, criativo e inovador foi sempre um homem muito à frente do seu tempo. Quando havia dúvida ou divergência sobre que caminho deveria ser tomado, tinha a necessária perspicácia de entender como ninguém determinada situação e detinha capacidade única de perceber qual caminho tomar, na maioria das vezes, uma terceira via que ninguém havia conseguido vislumbrar. Extremamente dedicado à vida associativa, inovou a maneira da Sociedade se relacionar com o seu próprio associado, seja através do Boletim, da Revista da SBACV-RJ, das campanhas com stands junto à população, seja através das reuniões científicas nas seccionais do interior. Médico humano, bom pai, avô e amigo, iluminava o ambiente em que chegava. Deixa órfã sua amada filha, a Revista de Angiologia e Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro a cada número a ser publicado daqui por diante e deixa imensa saudade nos membros de sua equipe, nos seus ex-alunos e ex-residentes e neste seu seguidor dileto dentro da SBACV, porém seu legado jamais será esquecido e está marcado para sempre na história da SBACV.